Da arte de se estar em casa.

Quem acompanha o Sacola já conhece o André Gonçalves, fotógrafo, escritor, poeta, publicitário, estudante de Filosofia, Cruzeirense e mineiro que nem eu (já falei dele aqui).
Ele escreveu esse texto lindo de viver para as leitoras do Sacola:


"Da arte de se estar em casa



Uma casa não é feita de paredes. Nem de telhados. Nem de janelas, móveis, adornos, lustres, escadas. Uma casa é feita de memórias. De sentimentos. De desejos. De medos. De cheiros. De sombras dançarinas. De delírios. De sons.




A sua casa não é, necessariamente, a casa em que você vive. Pode ser a casa em que você já viveu. Pode ser a casa onde você nunca entrou. Pode ser a casa que você viu em um livro de arte, em uma revista, em um breve passeio a algum lugar onde você nunca esteve. Sua casa pode ser uma ideia de casa. Uma casa que tem chaminé soltando fumaça o dia inteiro e um pomar, mas que não tem alicerce nem endereço, coisas totalmente dispensáveis em um mundo que é, pense bem, o mundo real: o mundo dos sonhos e das incertezas.








Estar em casa é estar junto ao indelével, é estar mergulhado no que a memória nem sempre traz à tona, mas que está sempre abraçando o corpo, a alma e o tempo, vivido ou por viver. Estar em casa não implica em estar em uma casa. Sua casa pode ser algo imaterial, sem aquilo que, por vício e não compreensão do que concretamente é o existir, chamamos de concreto.






As casas não são escolhidas por nós. Elas nos escolhem. Você pode nascer em uma casa e ela não ser a sua casa.Você pode nunca ter entrado em uma casa e ela ser o lugar onde você se encontra com  o que e o quem você é. Porque é nessa casa, vivida ou imaginária, que você vive com aquela pessoa que você realmente é, e não com as pessoas com as quais você é obrigado a viver. Inclusive você mesmo. Porque existem lugares, que são até mesmo a maioria entre todos os lugares, onde nós não vivemos conosco, mas sim com alguém que fingimos ser. 




Quantos de nós somos nós mesmos? Quantos podemos nos sentir verdadeiramente dentro de nossa casa, sentados à mesa completamente à vontade com nossas solidões, deitados no sofá despudoradamente abraçados às mais verdadeiras paixões que carregamos pela vida? Quantas casas, quantos quartos, quantos cômodos, seu corpo já visitou, já dormiu, já tocou, sem sentir que ali, sim, estava você, o você de verdade, único, com medos, angústias, alegrias e lágrimas? Quem teve o privilégio de viver no exato local onde habitam suas mais desvairadas alegrias e dançou rodopiando ao som dos mais eloquentes  e harmoniosos silêncios, que são os silêncios de uma casa que seja, verdadeiramente, a sua casa?




Essa é uma de nossas eternas buscas. Talvez, a maior de todas. Não é a busca por riquezas, por fama, por beleza, por conhecimento, que nos move. Essas são as que, por não sabermos o que é verdadeiramente estar em casa, acreditamos que nos levam a esse lugar único e sempre distante, apesar de tão dentro de nós. O que nos move é a eterna busca por uma casa que nos acolha por inteiro, que seja a volta ao princípio de tudo, onde estivemos sempre seguros, protegidos, acariciados, mergulhados com a vida em suspenso e tendo, por trilha sonora, apenas um suave tumtumtum de alguma coisa que não sabíamos o que era.
Mas que seguimos, pela vida inteira, procurando reencontrar."


Obrigada, André!
Para ler mais do autor: Farinhada
Fotos (do André) e para ver mais: André Gonçalves

7 comentários phynos:

  1. Oi, achei esse texto tão lindo que queria pedir autorização para colocá-lo no meu blog. Obviamente, com todas as referências necessárias. Posso?

    Ah, meu blog é recém-nascido, rs. Tem 3 dias de vida, rsrs.
    http://ideiasnumapalavra.blogspot.com

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  2. Tati, peça autorização ao André: andrepiaui@hotmail.com Beijo!

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  3. Que texto lindo, poético e arrebatador. Eu amei o estilo dele.

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  4. Oba!!!!!! O André autorizou! Vou colocar, com os créditos do Sacola e dele. Obrigada Pri!

    http://ideiasnumapalavra.blogspot.com

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  5. Parabéns pelo texto e pelo blog!!!

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  6. Carolina Gualberto19 Maio, 2010

    Sinceramente... eu parei. Eu parei tudo dentro de mim... e refleti... me emocionei...

    Que sensibilidade. Quanta realidade. Nossaa...
    Muito lindo, André!!!!

    Bjos.

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