Cheiro de liberdade.

O André Gonçalves, escritor, poeta, fotógrafo, Cruzeirense e mineiro, autor de "Coisas de Amor Largadas na Noite", que já citei aqui, aqui e aqui escreveu um texto lindo em homenagem à nós, mulheres, e exclusivamente para as leitoras do Sacola:
Foto: André Gonçalves
"Cheiro de Liberdade
Dizem por aí que sou poeta. Então, pode ser que esses estranhem que, em pleno Dia Internacional da Mulher, eu não cante odes à beleza feminina, nem teça loas à sua condição de genitora do mundo.
Sinto, mas não vou fazer isso.
Prefiro dizer, hoje, que você perceba que os fios brancos de seus cabelos são encantadores, e que não é preciso ficar loira após os quarenta para ser bonita, nem usar chapinha para ser sexy.
Prefiro dizer que não quero ver você passar duas horas do se dia em uma academia para se encaixar em padrões impossíveis. Acho muito mais poético dizer que os furinhos em suas coxas são lindos. Gosto de imaginar que não vou mais ouvir ninguém dizer que em "certas" funções a mulher é melhor que o homem.
Torço sinceramente para que as atrizes tenham papéis dignos após os cinquenta anos, e que o mercado de cosméticos diminua significativamente seus produtos dirigidos à mulher.
Hoje, vou mesmo trocar a imagem poética da "mater" pela imagem de uma mulher que possa escolher por ela mesma se quer ou não ser mãe, se quer ou não ser "mulher" de alguém, que possa decidir por ela mesma o que é um traje adequado ou inadequado para ir a qualquer lugar, que não corra o risco, a cada seis minutos, de ser estuprada e ainda ouvir "com aquela roupa ela estava pedindo". Que não precise ir a delegacias "de mulheres" para ser respeitada em seus direitos elementares de integridade física e moral. Que tenha a possibilidade de andar de ônibus, trens, metrô, sem ser "encoxada". Que possa errar no trânsito sem ouvir um "ê, dona Maria!".
Homenagem à mulher talvez fosse um poema que reverenciasse rugas, estrias, marcas do tempo na pele. Não sua brancura ou morenice o sua elasticidade juvenil ou um toque de pêssego. Um poema em homenagem à mulher não falaria de sua extrema sensibilidade ou de sua grandiosa força: falaria sobre sua humanidade. Sobre sua capacidade de ser normal. Nem poderosa, nem frágil. Nem perfeita, nem demônio. Nem pura e singela, nem megera. Humana.
É evidente que, sendo homem, é impossível precisar os sentimentos e os desejos e as frustrações por que passa a mulher no dia a dia. É bastante provável que eu erre, aqui e ali. Mas é fundamental que eu queira lutar para que cada mulher possa ser ela mesma. Com suas virtudes e defeitos. Posso tentar minimamente compreender o que todas as mulheres desejam, algumas mesmo sem saber: creio que todas, indistintamente, querem ser gente. Isso: ser gente. Não ser escrava de nada. Nem da mídia, nem do medo, nem da maternidade, nem da vaidade, nem do chefe, nem do homem. Nem dela mesma, ou da imagem que elas têm do que seja ser uma mulher.
Hoje, talvez, eu desse para você um presente um pouco mais perfumado que uma rosa. Quem sabe, uma chave. Para você se libertar de todos os cadeados que ainda prendem seus sonhos em correntes imaginárias, e às vezes, até mesmo reais. O perfume que você merece respirar não é o perfume de rosa. É o cheiro de liberdade. Da liberdade de ser, de sentir, de gostar, de não gostar, de ser imperfeita, de desejar, de não querer.
Da liberdade de ser livre."
Obrigada, André!
Para ler (e ver) mais coisas do André:
Ah! O André vai nos presentear todas as semanas com um texto lindo!

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